A luta da mulher sorocabana foi fundamental para a história da cidade

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CRÉDITOS: A NOVA DEMOCRACIA | TEXTO DE CARLOS CARVALHO CAVALHEIRO – Desde os primórdios da industrialização sorocabana, já com tino para a atividade têxtil desde o berço — quer desde 1852, quando da primeira experiência de Manoel Lopes de Oliveira (com mão-de-obra escrava, em sua maioria, em lugar de operários assalariados), quer em 1882, com a fundação da Fábrica Nossa Senhora da Ponte, de propriedade de Manoel José da Fonseca —, a mulher trabalhadora sempre esteve presente. A industrialização sorocabana seguia os moldes do desenvolvimento do capitalismo mundial, em que a mão-de-obra de crianças e mulheres era sempre aproveitada como forma de aumentar a procura em relação à oferta de empregos. Dessa forma, criando esse “exército de reserva”, se manipulava as questões de direitos trabalhistas e do salário condigno ao interesse do patronato.

O Diário de Sorocaba, importante fonte de pesquisa, atesta através de seus anúncios a existência do trabalho feminino nas indústrias têxteis sorocabanas logo no início do processo de industrialização da cidade, momento de transição entre o ciclo do tropeirismo e o da cultura do algodão (exportado para a Inglaterra, principalmente durante a Guerra de Secessão dos EUA):

Machina de Tecidos

Precisa-se contractar rapazes de 12 a 15 annos e mulheres para o serviço de machina de tecidos do sr. M. J. da Fonseca. Para tratar na mesma machina com o sr. Alexandre Marchísio.

(Diário de Sorocaba, quarta-feira, 02 de março de 1882).

Há mais de 120 anos, a mulher sorocabana ingressou na árdua missão de ser operária. No entanto, ao contrário do que atropeladamente afirmam alguns estudiosos, baseados em relatos orais e na transmissão de uma cultura subserviente a serviço da ideologia burguesa, a mulher sorocabana, especialmente após o início do século XX, tornar-se-á combativa em defesa dos direitos da classe. A chegada do século XX tornou mais evidente a presença da mulher nas fábricas. Até porque é quando surgem as organizações operárias (anarco-sindicais ou comunistas).

Em 1917, as costureiras da Fábrica de Chapéus Souza Pereira engrossaram numericamente o contingente de grevistas na primeira greve geral desta cidade. Segundo Paulo Celso da Silva “… A condição do operário no início do século em Sorocaba não diferenciava muito da maioria do Brasil: péssima. Não havia leis previdenciárias, regularização das horas de trabalho para os homens, mulheres, crianças…” A par disso, o crescente número de acidentes de trabalho fazia saltar aos olhos as inadequadas condições de trabalho dos operários (e operárias) da Sorocaba do início do século XX:

Victima do trabalho

Hontem foi víctima de accidente, na sala de fiação da fábrica Santo Antônio, a operária Victoria Cotochesteck, brasileira, solteira, de 16 annos.

Essa operária teve o dedo médio direito preso à sua machina, recebendo ainda ferimentos pela mão.

Foi aberto inquérito.

(Cruzeiro do Sul, sábado, 28 de janeiro de 1928).

No ano de 1922, época de agitações e grandes transformações — como a Semana da Arte Moderna e a Fundação da Federação Brasileira para o Progresso Feminino, pelas mãos de Bertha Lutz —, as operárias sorocabanas “eclodiram greves na Fábrica de Tecidos Santa Maria” (Mulher Trabalhadora — Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, janeiro de 1986).

Que nomes tinham essas operárias? A história não responde. A mulher ainda precisa conquistar o seu espaço na história. Relatos como este, colhido por Edgar Rodrigues em Alvorada Operária, bem testemunham o quão dramática era a situação de muitas operárias e o quanto se vem encobrindo, com o mito do bom patrão, o horror praticado por quem, baseado na ideologia burguesa, se crê superior aos outros mortais:

(…) Mestre Cláudio fechava as moças no escritório para forçá-las à prática sexual. Muitas moças foram prostituídas por aquele canalha. Chegava a aplicar punições de dez a quinze dias pelas menores faltas, e até sem faltas, para forçar as moças a ceder a seus intentos. As moças que faziam parte do Sindicato eram vistas como meretrizes, ou pior que isso: eram repugnantes

É gritante a urgência da recuperação da memória operária, sobretudo da mulher, até hoje não reabilitada e que sofreu maior exploração: era trabalhadora na fábrica e possuía seus afazeres domésticos em casa, quando não também na casa do patrão, servindo de doméstica ou cozinheira após o expediente na indústria. Somente conhecendo o quanto sofreram os operários (e operárias) de outrora é que elevaremos a consciência sobre a importância de se continuar lutando para garantir as conquistas que tanto suor, lágrima e sangue demandaram.

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