Menina que pediu comida em troca de máscara na rua recebe ajuda de Luciano Huck

“Troco uma máscara por um alimento“. Esse era o pedido da pequena Ana Júlia Costa Sabino, 9 anos, que aproveitava o sinal vermelho da Avenida Alfredo Balthazar da Silveira, na Zona Oeste do Rio, na esperança de conseguir o que comer.

A cena, ocorrida em meio ao turbilhão de dezenas de carros e vendedores de balas, chamou a atenção do empresário Rúbio Carlos Toledo de Santana, 33 anos, que decidiu ajudá-la de alguma maneira.

Ele publicou uma imagem de Ana Júlia nas redes sociais na última terça (12), que rapidamente viralizou, comovendo milhares de internautas.

Corrente solidária
Pouco depois, uma corrente de solidariedade se formou para encontrar a menina, que contou com a ajuda de famosos, como o apresentador Luciano Huck.

“Naquele momento que ela passou, segurando a placa, me deu um nó na garganta. Doeu no coração porque tenho uma criança de seis meses. Foi uma mistura de sentimentos”, relata Rúbio. “Resolvi fazer a foto, não para expô-la, mas para mostrar que ela é um símbolo da realidade do que muitas pessoas estão passando, e muita gente não está vendo esse problema“, complementou.

Família com dificuldades

A mãe de Ana Júlia, Silvana Cristina Costa, 30, conta que por conta da pandemia de Covid-19, perdeu o emprego de empregada doméstica. Sem opções, recorreu ao semáforo da movimentada avenida para tentar ganhar dinheiro e comprar o que comer para os quatro filhos.

“Como eu tinha alguns doces, que vendia na praia, decidi tentar vendê-lo aqui. Também pedi a uma vizinha que fizesse umas máscaras para vender. Era o que me restava. Recebi os R$ 600 de ajuda do governo mas não foi suficiente”, lembra Silvana.

Na terça-feira, ela saiu para vender os produtos, como nos dias anteriores. “Eu não imaginava que iria acontecer tudo isso. Eu fiquei com receio do que as pessoas pensariam. Eu não queria que meus filhos estivessem aqui comigo. Eu sempre trabalhei para levar o alimento para dentro de casa e nunca levei eles. Nunca passou pela minha cabeça que eles iriam precisar vir comigo para vender (no sinal)”, conta.

Ana Júlia, que está sem aulas há meses, pediu para ir e ajudar a mãe na venda dos doces. “A minha mãe é muito trabalhadora. Ela faz faxina, trabalha na praia, e, vendo nessa situação, pedi para vir”, conta a menina.

A imagem de Ana Júlia pedindo comida em troca de uma máscara foi compartilhada dezenas de milhares de vezes online, chamando a atenção de inúmeras personalidades influentes.

Ajuda

Uma deputada estadual do Rio de Janeiro obteve ajuda psicológica para mãe e filha. Outras pessoas doaram alimentos, água e material de higiene, dentre outras coisas.

“Foi um anjo que passou e fez essa foto. Só tenho que agradecer a ele. As pessoas não param de me ligar dizendo que querem ajudar. Mas eu digo que não quero aproveitar da boa vontade delas. Eu só preciso de alimentos para os meus filhos e está tudo bem. Quero só trabalhar dignamente e não deixar faltar nada para eles” conta Silvana, chorando.

“Já comecei a receber muitas bençãos e por isso vou conseguir ajudar outras pessoas também, não tenha dúvida. Já vou abençoar todos os meus amigos que fiz aqui (na rua). Eles já são como se fossem da minha família. Quando cheguei aqui, eles me abraçaram, ajudaram, me deram apoio. Eles me deram força e disseram: você consegue, vai lá”, afirma.

‘A solidariedade tem que ser mais contagiosa que o vírus’

Na quarta-feira (13), o apresentador Luciano Huck afirmou que irá ajudar a família de Ana Júlia de maneira integral.

Seu único pedido é que eles voltem para casa e não venda mais doces na rua.

“Fiquei imaginando os meus filhos, que têm a mesma idade (da Ana Júlia), naquela situação. Como eu tenho dito com bastante frequência: a solidariedade tem que ser mais contagiosa que o vírus”, conta o apresentador.

“A Ana Júlia e a família dela são a materialização das consequências dessa pandemia nas famílias (brasileiras). A mãe trabalhava vendendo picolés na praia. Hoje, não tem ninguém na praia. A mãe trabalhava como diarista, acabou o trabalho também.

(Ela) cuida dos filhos sozinha e pela primeira vez na vida abriu a geladeira e o armário e não tinha comida para as crianças e nem para ela. E, por isso, foi para a rua tentar ajuda. Graças a Deus, hoje em dia as pessoas estão olhando a sua volta e percebendo que estamos mais interconectadas como nunca e que um problema na favela é o mesmo problema do asfalto”, disse Huck.