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Perícia encontra veneno de rato na comida que matou moradores de rua em SP

Garoto de 11 anos permanece internado; laudo indica a presença da substância popularmente conhecida como “chumbinho” em marmitas doadas, diz a polícia

Laudo apontou que veneno de rato foi misturado à comida doada a moradores de rua mortos na madrugada do último dia 22, em um posto de combustíveis desativado em IItapevi (Grande SP), diz a polícia. Um garoto de 11 anos, que também comeu o alimento de uma das marmitas, permanece internado, sem previsão de alta.

Segundo o delegado Aloysio Ribeiro de Mendonça Neto, titular da delegacia de Itapevi, os laudos tóxicológicos foram concluídos nesta quarta-feira (29). Ele não deu detalhes da investigação. “Só vou falar isso: os laudos deram positivo para ‘chumbinho’ nas marmitas e no estômago do cachorro”, afirmou o policial ao Agora, se referindo à forma como o veneno de rato é popularmente conhecido.

A cadela Dalila, de um dos moradores de rua mortos, também morreu após comer o alimento das marmitas.

As quentinhas foram doadas, por volta das 22h do dia 21, por integrantes de uma igreja evangélica. A pastora Agda Lopes Casimiro, 51, procurou a polícia, ainda no dia 22, para dizer que preparou a comida recebida pelos moradores de rua e negou que houvesse problemas. Ele afirmou que a própria família comeu o alimento, sem passar mal. A movimentação da religiosa foi registrada por uma câmera de monitoramento.

Duas das marmitas foram consumidas por Vagner Aparecido Gouveia de Oliveira, 37 anos e José Luiz de Araújo Conceição, 61, mortos com sinais de intoxicação na madrugada da quarta (22). Outras três foram entregues por Oliveira a um vendedor de churros de 42 anos. A namorada dele, uma adolescente de 17 anos, e o filho de Araújo, de 11, passaram mal e foram internados. A jovem teve alta no último domingo (26).

Antes da conclusão dos laudos, a polícia investigava se as marmitas haviam sido envenenadas no posto de combustíveis ou se os moradores de rua se alimentaram com comida estragada que estaria no local. Esta última hipótese foi descartada.

A polícia tenta agora esclarecer se a comida foi envenenada no posto ou no momento da preparação, quem teria feito isso e por qual motivo. O caso deixa de ser “morte suspeita” e de agora em diante é investigado como homicídio doloso (com intenção de matar).

De acordo com os atestados de óbito dos moradores de rua, a causa de suas mortes é intoxicação exógena (interação de um ou mais agentes tóxicos com o sistema biológico).

A polícia analisa outras imagens de câmeras de monitoramento, que registraram a movimentação perto do posto de combustíveis no dia em que as marmitas foram doadas. O material pode ajudar na identificação de todas as pessoas que estiveram no local, além da dinâmica de alguma eventual atividade suspeita.

O morador de rua Vagner Aparecido Gouveia de Oliveira era conhecido como protetor dos colegas que dormiam no posto desativado.

Cléber Viginóski, 36 anos, conhecia Oliveira há cerca de dez anos. Ele afirmou que ambos permaneciam grande parte do tempo nas ruas, em decorrência da dependência química e do alcoolismo.

Viginóski disse que há cerca de seis meses passou a dormir no posto de combustíveis, no bairro Vila Aurora, junto com outros moradores de rua. Segundo ele, o local também costuma receber visitas de estranhos que provocam e ofendem quem fica lá, principalmente durante a madrugada. “O Vagner não deixava quieto [as provocações]. Como ele era alto e forte, nos protegia de perigos e ameaças [de estranhos].”

Há cerca de 20 dias, Viginóski afirma que o amigo defendeu uma mulher, supostamente assediada por um homem que foi até o posto durante a madrugada. “Ele [Oliveira] virou um ‘rolo compressor’ para ajudar nossa amiga. Eram dois caras, mas só um apanhou e o outro saiu correndo”, lembra.

Por causa do “comportamento protetor” de Oliveira, Viginóski não descarta a possibilidade de que alguém tenha envenenado as marmitas. “É engraçado que só as marmitas que deram para o Vagner que mataram ele, e o seu José, e também fizeram os dois ‘de menor’ passarem mal”, afirmou, sobre o fato de Oliveira ter compartilhado quatro das cinco marmitas doadas a ele.

Outro morador de rua, de 32 anos, e que pediu para não ter o nome publicado, disse que os amigos de Oliveira se sentem desprotegidos, desde a morte dele. “Acho que mataram nosso amigo por vingança, porque ele protegia a gente.”

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