Em 28 de novembro de 2014, morria Roberto Gómez Bolaños, o Chespirito (uma alusão castelhana e diminutiva de Shakespeare).

No Brasil, o humorista, escritor, ator, produtor de cinema, televisão e teatro ficou conhecido pelos seriados “Chapolin” e “Chaves” que, segundo a Televisa, foi dublado em cerca de 50 idiomas.

Roberto Bolaños tinha 85 anos e morreu na casa em que vivia com sua mulher, Florinda Meza, a famosa Dona Florinda da série.

O dia da morte de Chaves

Ninguém nunca entendeu o fenômeno que é o Chaves no Brasil. Produzido há mais de 40 anos, seus episódios nunca deixaram de serem exibidos por aqui. E, mesmo tão antigos, em diversas ocasiões eles superaram em audiência outros canais que exibiam programações atuais. Deve ser porque o Chaves conseguiu refletir como ninguém a nossa realidade, não só do Brasil, como de toda a América Latina.

A sexta-feira do dia 28/11/2014 não foi diferente. Assim como faz todo os dias, o SBT exibia mais uma reprise do Chaves e, por uma dessas ironias do destino, o programa foi interrompido por uma edição extraordinária do telejornal para anunciar a morte de seu criador, Roberto Gómez Bolaños, o Chespirito, aos 85 anos. Os mais céticos poderiam até considerar a coincidência como uma piada (muito sem graça) mas era verdade. Imagino o humorista chegando no céu e dizendo: “Foi sem querer querendo”.

Hoje, certamente, crianças e adultos de até 40 anos estão de luto. Chaves e Chapolin formaram uma dupla de comédia imbatível, atemporal e que marcou e continua marcando gerações. A morte de Bolaños deixa o mundo mais chato e sem graça, principalmente porque cada vez mais estamos nos transformando em um bando de coxinhas politicamente corretos.

As piadas do Chaves, embora inocentes e que beiravam o pastelão, nunca foram politicamente corretas. Imagine só. Chaves era um menino de rua que vivia dentro de um barril e morria de fome. O vizinho era um desempregado que vivia fugindo do pagamento do aluguel. A outra vizinha era chamada de Bruxa do 71 e o gordinho da turma tinha o apelido de Nhonho. Hoje em dia, um programa como esse seria apontado como algo que incentiva a vadiagem (Seu Madruga), promove o bullying e a violência. Se fosse o Chaves, ele diria para os politicamente corretos: “Ai que burro. Dá zero pra ele”.

Mas é claro que não. O que o Chaves conseguiu com maestria foi nos encantar, nos divertir, fazer nossas tardes após a escola mais legais, nos ensinou musiquinhas inesquecíveis, mostrou o valor da amizade, enfim… Só nos deu felicidade.

O anúncio da morte de Bolaños foi confirmado por uma emissora de TV mexicana. Segundo ela, o humorista morreu às 14h30 (horário do México) em Cancún (não, não foi em Acapulco). Bolaños já apresentava uma saúde frágil há alguns anos e tinha acompanhamento médico 24 horas por dia. Ele era casado com Florinda Meza, a mesma que interpretou a Dona Florinda.

Quem quiser matar a saudade dos programas, não precisa esperar a reprise do SBT, eles podem ser assistidos gratuitamente no YouTube e também no Netflix. Um deleite para os fãs.

Mesmo sendo um programa de humor, Chaves soltava algumas pérolas de grande sabedoria. Uma delas cabe perfeitamente neste momento: “Prefiro morrer do que perder a vida”. O ator gostava muito do Brasil. Tanto que sua última postagem no Twitter, no dia 26 de novembro, foi: “Todo mi amor, para Brasil”. Certamente, esse amor sempre foi recíproco.