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Maqueiro pinta personagens infantis e melhora astral de ala pediátrica

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É comum imaginarmos os hospitais como lugares sem cores, desbotados, frios e sem alegria. Mas na ala de Pediatria do Hospital Municipal Miguel Couto, no Rio de Janeiro, o clima passou a ser outro desde maio.

Pensando em tornar o ambiente mais agradável para os pacientes, um funcionário da instituição teve uma ideia incrível: desenhar personagens infantis nas paredes dos corredores e quartos.

O maqueiro Renato Pereira da Silva, 37 anos, o Renatinho, como é carinhosamente chamado pelos colegas, trabalha no hospital há dezesseis anos. Desde que foi admitido no Miguel Couto, com 21 anos, ele tinha vontade de pintar o setor de Pediatria, pois achava o ambiente triste e sem cor demais.

Há cerca de dez anos, houve uma mudança de administração do hospital. Renatinho conta que todos os quadros foram retirados dos corredores, o que contribuiu para deixar o local ainda mais vazio e sem cor. Ele então pediu permissão à enfermaria e ao diretor do hospital e botou mãos à obra.

“A minha intenção é deixar um ambiente mais leve e alegre para as crianças que estão sendo tratadas”, conta o artista. Entusiasmadas com a ideia, as enfermeiras arrecadaram o dinheiro para a compra das tintas. O maqueiro fez apenas um pedido: que fosse comprado um produto sem cheiro para não afetar o estado de saúde das crianças.

Renato pensou em absolutamente tudo: sabendo que os quartos do setor pediátrico são divididos de acordo com a idade dos pacientes, ele fez desenhos que melhor se adequariam a cada faixa etária. Para os meninos, desenhou super-heróis famosos entre as crianças, como Thor e Capitão América.

Já para as crianças em idade de alfabetização, desenhou uma parede inteira com as letras do alfabeto. Para as meninas, desenhou as princesas Elsa e Tiana. Renato já recebeu até encomendas para os próximos desenhos. “Agora, eu quero que ele faça a Bela e a Cinderela”, pediu Isabella Barbosa, 6 anos.

Sempre acompanhado pela arte

A pintura acompanha Renatinho desde a infância. Quando ele tinha 12 anos, aprendeu técnicas de desenho apenas observando os irmãos mais velhos pintarem. “Por ter déficit de atenção, em vez de estudar, fazia desenhos em sala de aula”, lembra.

Ele não tinha boas relações com o pai, que tinha envolvimento com o tráfico. Pintar e desenhar foram maneiras encontradas pelo jovem para “passar por cima das dificuldades”. O maqueiro conta que já chegou a dar aula para crianças e a participar de um grupo de grafiteiros no Complexo do Alemão.

“Renato é uma das pessoas mais maravilhosas que a gente pode ter como amigo. Era uma pessoa que tinha tudo para dar errado, mas deu muito certo”, diz a técnica de enfermagem Izonita Mota, 52 anos, que é madrinha do rapaz.

Trabalho até durante as folgas

Todas os desenhos na ala de Pediatria do Hospital Municipal Miguel Couto foram feitos por Renato em seus dias de folga: “Eu chegava ao hospital às 7h e terminava às 22h. Só parava para almoçar”. Para Simone dos Santos Ramos, 33 anos, que trabalha como servente no hospital, os desenhos do maqueiro animam as crianças: “Por ser um lugar triste, os desenhos fazem com que elas se sintam melhor em estar aqui”.

Apesar do notável talento, Renatinho não vê a arte como profissão. “Não tenho o desenho como forma de ganhar dinheiro, o desenho, para mim, é um tratamento psicológico”, ressalta. No ano passado, ele concluiu o ensino médio e atualmente está fazendo curso de técnico de enfermagem, custeado pelas enfermeiras do Hospital Miguel Couto e por uma senhora para quem trabalha como cuidador.